29 abril 2014

[Meus textos] Mergulho no espelho

 
 
Você consegue me ver?!
 
Agora estou diante do meu maior espelho. Ele não é novo, mas também não é muito velho. Sem maiores atrativos e com uma moldura simples ele mostra como realmente sou. Sem mentiras ou bajulação. Já tive outros, não menos importantes, suas cores, formas e preços diferiam, mas o resultado era o mesmo. Em momentos de agonia, aflição, descontentamento ou a inocente vontade de desconectar o fio que me ligava ao presente recorria a ele.
 
Sempre tive preferência por suas últimas e esquecidas partes. Era no final que eu encontrava o meu início bem ali, entre os rabiscos e desenhos desprovidos de talento.
 
Também já fiz dos meus contornos um espelho seja pra lembrar do que eu queria esquecer ou na alegria de uma infância com aroma e sabor de tutti frutti e tatuagens falsas.
 
Fiz das últimas páginas dos meus companheiros, um diário vulgar (talvez você não tenha vontade de ler) onde o papel suportava sem lamentações toda a força que eu impunha a caneta. Cada sentimento que eu, às vezes, em vão procurava manchá-lo com letras ilegíveis, existentes que inexistiam na combinação de lágrimas e tinta.
 
E agora, estou diante do meu maior espelho sendo a garota que cresceu em meio aos livros, ou melhor, os livros que cresceram e se empilharam ao meu redor. E eu ainda insisto e persisto em provocar o silêncio atirando letras, grafite e tinta encarando eu mesma.
 
E agora, consegue me ver?!

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